GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DO BRASIL PDF

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Guia Politicamente Incorreto Do Brasil Pdf

Author:YOLONDA RENINGER
Language:English, Dutch, French
Country:Austria
Genre:Science & Research
Pages:163
Published (Last):21.02.2016
ISBN:459-4-31353-830-2
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A chamada tica das virtudes de Aristteles pressupe que a prtica das virtudes como tocar um instrumento musical: quanto mais se pratica, mais virtuoso se fica. A antipatia que esta forma de tica ganhou depois do sculo 18 ainda que haja uma tendncia contempornea em recuperla se deve recusa da sensibilidade democrtica em reconhecer que nem todos so capazes de desenvolver um carter forte. A maioria tende covardia e fraqueza. Desculpar a falta de fora de carter da maioria se transformou em fato comum numa certa filosofia revolucionria depois da politizao da tica na esteira de Rousseau e Marx ou da ideologizao de tudo, como quando se culpa o capitalismo por tudo de mau no mundo.

Basicamente, o mundo sempre foi mau e continuar a ser, porque ele fruto do comportamento humano, que parece ter certos pressupostos naturais. Para os defensores do politicamente correto, tudo justificado dizendo que voc pobre, gay, negro, ndio, ou seja, algumas das vtimas sociais do mundo contemporneo.

No se trata de dizer que no h sofrimento na histria de tais grupos, mas sim dos exageros do politicamente correto em querer fazer deles os proprietrios do monoplio do sofrimento e da capacidade de salvar o mundo.

O mundo no tem salvao. O aristoi sofre muito mais do que o homem comum. No Renascimento, outro filsofo, Maquiavel, volta ao tema da virtude, ainda que de modo diferente. Para o filsofo de Florena, alguns homens tm virt virtude enquanto a maioria no. E o que a virt? Virt uma qualidade do carter de alguns homens que os faz mais fortes e capazes de resolver problemas e enfrentar as dificuldades colocadas pelo dia a dia.

Maquiavel evidentemente pensa no lder poltico, mas podemos ampliar sua anlise para alm da poltica. A observao do comportamento humano e da experincia histrica parece mostrar que no a maioria dos homens que tem virt, a maioria banal, como sempre. Por outro lado, o conceito de fortuna o segundo termo importante do par essencial no pensamento maquiaveliano em seu famoso livro O Prncipe, ao lado da virt. Fortuna acaso. Para Maquiavel, e muitos outros filsofos, a realidade dominada pelo acaso, isto , no h providncia divina nenhuma gerindo os eventos da vida ou do mundo.

Vale salientar que aqui discutimos apenas o Maquiavel de O Prncipe. O virtuoso enfrenta melhor a fortuna, observando inclusive que muita coisa que as pessoas comuns remetem aos deuses ou ao prprio acaso pode ser enfrentada pela observao, disciplina, ousadia e coragem. Maquiavel nos lembra que a fortuna representada como uma mulher. Por isso, como toda mulher, ela demanda coragem, ousadia e impetuosidade no trato, e no, medo, timidez e covardia.

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A proximidade entre virt e competncia com a lida da vida enorme. De qualquer forma, o domnio da fortuna sempre determinante, mas o virtuoso pode ter mais sucesso nesse enfrentamento durante algum tempo. Outra coisa que o politicamente correto detesta numa posio como a maquiaveliana seu desprezo por qualquer forma de idealizao do ser humano.

Para o filsofo de Florena, a natureza humana, talvez devido ao pavor diante dos efeitos avassaladores da fortuna, sempre fraca, mentirosa, volvel, infiel, interesseira. Em poucas palavras, sofre de agonia por precariedade. No h, aparentemente, possibilidade para a ideia de um cidado consciente que escapa desse determinismo causado pelo terror da fortuna. Todavia, um bom prncipe leia-se, virtuoso pode tirar o que h de melhor do homem, na medida em que d a ele a possibilidade de uma vida menos dominada pela fortuna, pelo menos nos limites do convvio poltico e social.

A ideia de uma aristocracia competente dando ao homem comum uma vida menos terrvel evidente no pensamento de Maquiavel. J no sculo 20, uma filsofa russa exilada nos Estados Unidos, Ayn Rand, nos deu a melhor descrio do que seria uma tica aristocrtica das virtudes no mundo contemporneo e burgus.

Sua monumental obra de fico A Revolta de Atlas uma distopia. Distopias so o contrrio de utopias que descrevem parasos futuros , pois descrevem futuros polticos e sociais terrveis. A distopia de Rand descreve um mundo dominado pela mentalidade socialista, coletivista e por isso mesmo preguiosa.

Na minha vida j tive a infeliz oportunidade de participar de vrias reunies na universidade, seja como aluno, seja como professor, nas quais estavam presentes muitas pessoas preocupadas com o coletivo e a igualdade, e nunca vi tamanha concentrao de pensamento a servio de tanta estupidez e nulidade.

Como dizia Tocqueville no sculo 19, autor do maior livro sobre democracia j escrito, Democracia na Amrica, a igualdade ama a mediocridade. Rand acerta em cheio quando mostra uma sociedade que s fala no bem comum e na igualdade entre as pessoas contra as diferenas naturais de virtudes entre elas, estas a servio do mau-caratismo, da preguia e da nulidade. Ao buscar destruir as injustias sociais, o mundo descrito por Rand destri a produtividade, fonte de toda a vida, paralisando o mundo.

Rand conhecida por seu realismo objetivo em tica. Para ela, uma pessoa corajosa, trabalhadora, inteligente, ousada produz a sua volta relaes humanas sejam elas econmicas, polticas, existenciais concretas que so teis, abundantes, produtivas. Por exemplo, coragem produz no mundo ganhos materiais para todo mundo.

Preguia e covardia produzem misria, mesquinhez, mentira. Isso mesmo: fora e coragem fazem as pessoas verdadeiras nas suas relaes, enquanto a ausncia de virtudes como essas as faz mentirosas e traioeiras. A distopia descrita por Rand a melhor imagem do mundo dominado pelo politicamente correto: inveja, preguia, mentira, pobreza, destruio do pensamento, tudo regado pelo falso amor pela humanidade. Atlas aqui representa todos os homens e mulheres que carregam e sempre carregaram o mundo nas costas e que nos ltimos anos passaram a ser objeto de crtica pela esquerda rousseauniana.

Alguns trechos do livro podero fazer voc ter nuseas se for uma pessoa que sofre na pele a mentira dos preguiosos amantes da igualdade. Rand afirma que a maior parte da humanidade sempre viveu s custas de uma minoria mais capaz e mais inteligente.

Antes que algum leitor politicamente correto, com o mau carter que o caracteriza, tente dizer que isso fascismo, peo que me poupe. Nada h de fascismo em Rand, apenas reconhecimento do bvio: poucos carregam muitos. Isso nada tem a ver com dio de raas, destruio das vtimas pelo contrrio, menos vtimas de pobreza existiro se existir mais gente produzindo riqueza ou outros croquetes ideolgicos.

Uma das qualidades supremas de Rand ter percebido ainda em meados do sculo 20 que o mundo se preparava para desvalorizar aqueles mesmos graas aos quais os outros vivem, sob o papinho da justia social. Se ela tivesse conhecido Obama, vomitaria.

E esse convvio no fcil. Entre os dois, habita o que eu chamo de sensibilidade democrtica, um conjunto de caractersticas que vo alm do mero debate acerca das instituies democrticas, como poderes pblicos, partidos, eleies, plebiscitos etc. No se trata de falar mal da democracia, ela o regime poltico menos ruim.

At onde os especialistas podem falar, precisamos viver em grupos para sobreviver, mas para isso fazemos concesses ao grupo em troca de alguma segurana.

Nesse sentido sou hobbesiano: o homem o lobo do homem, e o estado de natureza grosso modo , a maneira pr-poltico de vida, uma espcie de vida em bando do Neoltico devia ser bem pssimo. Por isso precisamos de organizao e poder.

Dentro desse quadro de ausncia de opo de vida sem Estado poltico, a democracia o menos pior porque procura institucionalizar as tenses da vida em grupo, distribuindo os poderes de modo menos concentrado. A tentativa de definir a democracia como regime de direitos ridcula porque no existem direitos sem deveres, por isso a ideia de que piolhos ou frangos tenham direitos comea a aparecer quando separamos direitos de sua contrapartida anterior, os deveres.

A praga PC costuma fazer essa separao por motivos de marketing poltico e ignorncia filosfica. Mas, independentemente de a democracia ser nossa melhor opo, h problemas nela, claro.

Como dizia Tocqueville, a democracia tem impactos especficos nos humores, temperamentos, hbitos e costumes.

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O que chamo de sensibilidade democrtica parte desses impactos. Uma coisa que salta aos olhos a tentativa de chamar qualquer um que critique a democracia de antidemocrtico. A sensibilidade democrtica dolorida, qualquer coisa ela grita. Mas no me engano com ela: esse grito nada mais do que a tentativa de impedir crticas que reduzam a vocao tambm tirnica que a democracia tem como regime do povo. O povo sempre opressor, Rousseau e Marx so dois mentirosos. Mesmo na Bblia, quando os profetas de Israel criticavam os poderosos, tambm criticavam o povo, que nunca foi heri de nada.

Alis, o risco da tirania do povo j tinha sido apontado pelo prprio Tocqueville. As duas formas mais evidentes de tirania so a da maioria e a do dinheiro criador de uma aristocracia do dinheiro em lugar da de sangue. Para evitar esse risco tirnico, precisamos cuidar dos mecanismos de pesos e contrapesos da democracia suas instituies em conflito, mdia, instncias de razo pblica, como escolas, universidades, a prpria mdia, tribunais etc.

O povo sempre opressor. Quando aparece politicamente, para quebrar coisas. O povo adere fcil e descaradamente como aderiu nos sculos 19 e 20 a toda forma de totalitarismo. Se der comida, casa e hospital, o povo faz qualquer coisa que voc pedir. Confiar no povo como regulador da democracia confiar nos bons modos de um leo mesa.

S mentirosos e ignorantes tm orgasmos polticos com o povo. Mas, voltando a liberdade igualdade, principal tenso na democracia: segundo Tocqueville, no h como evitar essa tenso porque ambas so valores de raiz da democracia. Quando voc d mais espao para a liberdade, a tendncia de que a democracia acentue as diferenas entre as pessoas e os grupos que nela vivem. Mas a liberdade a chave da capacidade criativa e empreendedora do homem.

Quando voc acentua a igualdade, a democracia ganha em nivelamento e perde em criatividade e gerao de abundncia para as pessoas. O politicamente correto um caso clssico de censura liberdade de pensamento, por isso, sob ele, o pensamento pblico fica pobre e repetitivo, por isso medocre e covarde. Quando se acentua a igualdade na democracia, amplia-se a mediocridade, porque os covardes temem a liberdade.

Por exemplo, os regimes marxistas, assim como os fascistas de direita os marxistas so os fascistas de esquerda , reduziram o pensamento e a vida das pessoas ao nvel de um formigueiro. Mas a sensibilidade democrtica sofre quando se aponta a relao entre culto da igualdade e mediocridade. Essa questo toca fundo na natureza humana, que tende facilmente inrcia, a fim de garantir o cotidiano.

Algo na natureza humana ama a mediocridade. Outra caracterstica problemtica da democracia sua vocao tagarela, como dizia o conde de Tocqueville. Nela, as pessoas so estimuladas a ter opinio sobre tudo, e a afirmao de que todos os homens so iguais quando a igualdade deve ser apenas perante um tribunal leva as pessoas mais idiotas a assumir que so capazes de opinar sobre tudo.

Leandro Narloch

E, como dizia nosso conde, Descartes filsofo francs do sculo 17 nunca imaginou que algum levasse to a serio sua ideia de que o bom senso foi dado a todos os homens em quantidades iguais o que evidentemente uma mentira emprica. O resultado que, se voc pe em dvida a capacidade igual entre os homens de ter opinies, a sensibilidade democrtica grita de agonia.

Mesmo homens com diploma universitrio de engenharia, por exemplo, se julgam capazes de pensamentos profundos sobre o mundo, revelando como a universidade, ao se tornar um fenmeno de massa como dizia o filsofo espanhol Ortega y Gasset no sculo 20 , criou a iluso de opinies banais com ares cultos. Uma coisa que nosso conde percebeu que o homem da democracia, quando quer saber algo, pergunta para a pessoa do seu lado, e o que a maioria disser, ele assume como verdade.

Da que, no lugar do conhecimento, a democracia criou a opinio pblica.

Mas talvez a pior coisa da democracia seja o fato de que ela deu aos idiotas a conscincia de seu poder numrico, como dizia o sbio Nelson Rodrigues. Em suas colunas de jornais, o Nelson costumava dizer que os idiotas, maioria absoluta da humanidade, antes do advento da Revoluo Francesa, viviam suas vidas comendo, reproduzindo e babando na gravata.

Com a Revoluo Francesa e a democracia que a primeira no criou exatamente porque foi muito mais um regime de terror autoritrio , os idiotas perceberam que so em maior nmero, e de l para c todo mundo passou a ter de agrad-los, a fim de ter a possibilidade de existir principalmente intelectualmente.

O nome disso marketing. Todo mundo que pensa um pouco vive com medo da fora democrtica numrica dos idiotas. O politicamente correto uma das faces iradas desses idiotas. O filsofo ingls Michael Oakeshott escreveu vrios textos criticando as utopias polticas criadas a partir do sculo Um deles, em especial, O nascimento do homem-massa na democracia representativa, dialoga com a intuio rodriguiana. Para ambos, a democracia sempre d a vitria aos idiotas porque so a massa.

Oakeshott descreve o nascimento, ainda no Renascimento, de uma moda intelectual segundo a qual todos os homens seriam capazes de ser indivduos. O nascimento da noo de indivduo no Renascimento italiano j tinha sido apontado pelo historiador suo do Renascimento Jacob Burckhardt no sculo O autor suo chegou mesmo a descrever em sua obra o fato de muitos burgueses pagarem a escritores em condies financeiras ruins para escrever sobre suas vidas, enaltecendo seus feitos.

Nas palavras de Burckhardt, a inteno era criar a noo do que hoje chamamos de ter uma personalidade prpria e especial. Claro que h uma relao importante entre o nascimento da noo de indivduo e o surgimento da burguesia, a classe que define seu prprio destino pela competncia de cada um, e no pela mera herana de sangue. Com a runa da sociedade rural feudal, quase imvel, os burgueses criam o valor da individualidade competente e responsvel por si mesma, uma espcie de caso histrico do homem criador de seus prprios valores, como na utopia nietzschiana do super-homem.

Entretanto, quase todos fracassam na empreitada, porque o mundo sempre hostil individualidade, que fonte de valor para si mesma. O argumento de Oakeshott que quase ningum indivduo de fato isto , quase ningum tem uma personalidade autnoma e ativa, e di ter uma personalidade assim , por isso a regra repetir o que a maioria faz, mentindo-se sobre o fracasso da individualidade verdadeira. Ao contrrio de Kant, no sculo 18, que sonhava com uma sociedade de homens cada vez mais maduros a maioridade kantiana igual capacidade de tomar decises por si s, ou seja, autonomia , Oakeshott suspeitava que tomar decises por si mesmo era a maldio de poucos.

O politicamente correto adora dizer que a democracia feita de cidados conscientes e que todos so capazes de tomar decises autnomas, numa espcie de kantismo barato. Para Oakeshott, ser um indivduo implica solido e inseguranas que a maioria das pessoas simplesmente no suporta e, por isso, desiste.

Mas, como a democracia faz a propaganda da autonomia do indivduo como lastro dela mesma, acaba sendo hbito mentirmos sobre o fracasso da autonomia em escala poltica. Mas, se parasse por a, menos mal. Oakeshott dir que todos os indivduos fracassados odiaro os verdadeiros indivduos, caando-os pelo mundo porque eles resistem massificao necessria para a operao da democracia moderna.

Ao contrrio do que se diz, a democracia no opera pela autonomia, mas sim pela massificao crescente das opinies, como j dissera Tocqueville. Aquele indivduo fracassado indivduo manqu rapidamente se transformar em anti-indivduo e homem-massa, comprando modelos de personalidade que a mdia vende e seguindo lderes autoritrios ou populistas que afirmaro a autonomia para todos como se a autonomia fosse uma espcie de bolsa-famlia para toda a populao.

O indivduo verdadeiro sofre a perseguio mais descarada, porque ele sim vive a dureza de ter uma personalidade ativa e por isso mesmo acaba sendo um ctico com relao s promessas de autonomia para as massas. No fundo, o indivduo fracassado e o homem-massa invejam a liberdade do indivduo verdadeiro porque ela lhes parece um luxo. Na realidade so primitivos demais para entender a maldio que ser indivduo e a dor que ser livre sem pertena a bandos.

O encontro de Tocqueville, Nelson Rodrigues e Oakeshott evidente: o idiota raivoso fala sempre com fora de bando e, na democracia de massa em que vivemos, ele sim tem o poder absoluto de destruir todos os que no se submetem a sua regra de estupidez bem adaptada.

Quando o outro no cria problema, no h nenhum valor tico supremo em toler-lo. E, quando cria, quase sempre ningum o tolera. Veja, por exemplo, os eventos para dilogo inter-religioso. A discusso no pode durar mais do que meia hora, e logo devero servir os drinks e os croquettes, porque mais do que meia hora implicaria comear a falar a srio sobre as diferenas entre as religies as religies no querem todas a mesma coisa, isso conversa de mulherzinha.

Imagine cristos e judeus conversando sobre suas religies. Cristos assumem que Jesus foi o Messias que os judeus esperavam e tambm que Ele Deus , e, portanto, os judeus teriam perdido o bonde da histria ao no reconhecer Jesus como Messias. Por sua vez, os judeus pensam que os cristos pegaram o bonde errado ao assumir que Jesus foi o Messias.

Logo, conflito. Melhor tomar drinks e comer croquettes. Muulmanos so lindos, ndios so lindos, a frica linda, canibais so lindos, imigrantes ilegais so lindos, enfim, todos os outros so lindos. Uma das reas mais amadas pela praga do politicamente correto a chamada tica do outro, ou seja, uma obrigao de acharmos que o outro sempre legal.

Outro aqui significa quase sempre outras culturas ou algo oposto a Igreja, Deus, heterossexual, capitalismo ou arrumar o quarto e lavar o banheiro todo dia.

Evidente que conviver com o diferente essencial numa sociedade como a nossa, assolada pelos movimentos geogrficos humanos, mas da a dizer que todo outro lindo falso e, como sempre acontece com o politicamente correto, desvaloriza o prprio drama da convivncia com o outro.

Existem dois filsofos muito ligados a esta causa da tica da alteridade o que no quer dizer que eles carregam em si a praga do politicamente correto , nome tcnico para o frisson do amor a todos os outros. Um deles Martin Buber, e o outro, Emmanuel Levinas, ambos do sculo 20 e ambos judeus. Buber afirmava que as relaes no devem ser pautadas pelo binmio eu-isso, mas eu-tu. Tanto faz se o outro for uma pessoa, um animal ou a natureza. A ideia em si muito boa como elevao do padro tico nas relaes no mundo, claro que s vezes impossvel, porque o mundo funciona na lgica das trocas de interesses e de possibilidades de interesses, e a natureza humana est mais para o Prncipe do Maquiavel do que para o Pequeno Prncipe.

J o Levinas, mais recente, afirmava que o rosto do outro, uma espcie de frmula para falar de qualquer outro e todos os outros, deve pautar as relaes humanas, o que muito prximo, resumindo a pera, da posio de Buber. Para Levinas, no devemos querer saber o que as pessoas so ou para que elas servem, mas sim que so pessoas, e esse tipo de relao o modo de Deus operar, porque Deus o rosto do outro. Filosofias como essas sustentam o direito da existncia do outro no plano das relaes humanas e acabam por ser banalizadas no papinho de que o outro sempre legal e bonitinho por isso alguns filsofos profissionais consideram Levinas filsofo de mulherzinha.

Esse um problema que acomete as ideias abstratas e universais como esta: a realidade sempre menor ou maior do que ideias e, por isso, nunca igual s ideias. Grande parte da crtica que fazem filsofos como Nietzsche sculo 19 e Plato sobre essa tendncia a descrever mal o mundo porque o fazemos desde um ponto de vista ideal e no real. O problema da idealizao do outro em nosso mundo contemporneo pior porque somos saturados de outros pessoas que vivem e pensam de modo estranho e quase sempre desagradvel para ns em toda parte: nos condomnios, no metr, no nibus, no trnsito, no cinema, no aeroporto.

Quando os outros esto longe, do outro lado do oceano, bonitinho amar todos os outros, mas, quando eles tm cheiro e hbitos outros, a coisa complica. A crtica bobagem de o outro ser lindo no implica a defesa da destruio do outro, mas sim encararmos os impasses que a convivncia com o outro gera para a filosofia e para a vida. O pecado capital da praga PC sempre dourar a plula, no mnimo. Em sociedades promscuas culturalmente, como as do capitalismo avanado, em que pessoas se misturam no metr e nas lojas, o outro est sempre ao seu lado e s vezes, na hora do rush, pisando no seu p ou tomando seu lugar no nibus ou a vaga no estacionamento.

Mas pode ficar pior. Muitas pessoas gostam de dizer que as diferenas culturais so lindas, mas isso nem sempre verdade.

E que d para viver sempre em paz. Eu gostaria que isso fosse verdade. Imagine que voc mora em Londres, cidade saturada de outros. Imagine que voc seja uma pessoa legal e sem preconceitos. De boa vontade, inclusive. Agora imagine que voc tem uma filha educada nos padres bsicos ocidentais de um cristianismo relaxado e secularizado, isto , sem muitos salamaleques religiosos, e que voc seja um crente na ordem pblica pautada pela liberdade de crena ou descrena. Sua filha, ento, comea a namorar um muulmano No precisa ser um radical extremista Como seria?

No precisa imaginar questes muito complicadas sobre escolha entre Jesus e Maom, pense apenas na educao dos netos, nos papis masculinos e femininos, na vida profissional da sua filha, na relao com os ancestrais, nos calendrios religiosos No sou contra casamentos interculturais, falo apenas da falsa facilidade com a qual se levam discusses como essas. Transtornos culturais se resolvem mais facilmente quando as pessoas envolvidas no do muita bola para rituais e crenas especficas e aceitam a pasteurizao contempornea dessas crenas.

No limite, a dissoluo de qualquer grande pertena cultural ou identidade cultural marcante. Se tomar como identidade cultural esse jeito blas de ser dos ocidentais secularizados, voc poder ter algum conflito, mesmo que no seja um crente em sistemas religiosos de fato, se tiver que dividir o futuro dos seus filhos e netos.

Se for um crente no respeito ao outro, como acho que devemos ser na realidade, voc provavelmente descobrir que a maioria esmagadora desses outros de que o politicamente correto fala no d muito valor a respeitar outro algum. Esse problema tpico da cultura ocidental e de sua herana crist e iluminista.

A maior parte do islamismo no est nem a para esse papinho de respeito ao outro. A marca infantil, na melhor das hipteses, do politicamente correto revela, mais uma vez, sua alma inconsistente. Vejamos o problema da frica.

Um antdoto excelente ler V.

A frica que brota dos relatos de suas viagens a infeliz condio neoltica do continente, mesmo antes da devastao realizada pela colonizao europeia.

Massacres, escravido os africanos j escravizavam seus irmos antes dos brancos e mais tarde os venderam aos rabes, que os venderam aos brancos , queimar e mutilar pessoas vivas, bruxaria como ferramenta oficial e de negcios da vida na Nigria, segundo o que ele relata, um homem pode perder o patrimnio se for acusado de fazer um trabalho contra algum que tenha poder suficiente para provar a queixa.

Em Uganda, sacrifcios de crianas so quase to comuns quanto a fome, sempre foi. No Gabo, vive-se no Neoltico. Enfim, todo mundo sabe disso, mas a mentira politicamente correta nega.

E os muulmanos? O tema do fundamentalismo islmico uma constante no mal-estar contemporneo das relaes entre diferentes culturas. Independentemente do fato que pessoas no so iguais e que evidentemente a maioria dos muulmanos vive sua vida comum e cotidiana distante de intenes terroristas ou fundamentalistas ainda que a modernizao seja muito menor no mundo islmico e, portanto, um muulmano mdio tende a ser bem mais muulmano do que um ocidental cristo mdio cristo , h uma relao histrica recente entre fenmenos polticos violentos e alguns integrantes da comunidade muulmana internacional.

A tentativa de chamar o islamismo de religion of peace ridcula, uma vez que h elementos evidentes de risco de contaminao de muitos muulmanos por grupos radicais da mesma religio. Claro que todas as religies conhecidas j tiveram ou tm elementos de violncia em sua histria, mas, contemporaneamente, o islamismo tem, infelizmente, suprido a cota de terrorismo de modo mais frequente.

Achar que podemos transformar terroristas muulmanos em membros do partido democrata americano, como pensa o atual presidente dos Estados Unidos de origem muulmana Barack Hussein Obama, uma piada. Basta se perguntar como, por exemplo, eles aceitariam o casamento gay em seus pases.

Outro fator importante a relao entre a religio muulmana e o Estado nesses pases. Em muitos deles voc no poderia pregar a converso de um muulmano ao cristianismo porque crime, e o convertido seria considerado traidor. Negar fatos como esses s dificulta a reflexo e a informao das pessoas com relao aos problemas contemporneos.

Como disse acima, sempre bonitinho falar do outro quando ele s existe em minha cabea. Proporia uma estadia de alguns anos entre radicais islmicos para esses caras que acham que os radicais querem se sentar e conversar civilizadamente.

Inclusive as mulheres que ficam por a, posando de amantes do governo iraniano. Se pensarmos no que diz Edmund Burke sculo 18 sobre preconceitos, veremos que esses so mecanismos espontneos de reao moral. Nesse sentido muito difcil vencer preconceitos. Principalmente quando se trata de pessoas que creem que sua religio deve reger o mundo e que quem no crer nela infiel e deve morrer.

Essa relao se d por conta do medo que o romntico tinha do futuro do mundo e da sociedade do dinheiro, e por isso muita gente sonhava que os ndios, que vivem na Idade da Pedra, seriam melhores do que ns, ocidentais porque no viviam na ganncia em que ns vivemos.

Quando voc comea a pensar que tribos que no conheciam a roda at ontem, como alguns ndios brasileiros e alguns povos africanos, podem ser nossa esperana, poder acordar sendo um romntico idiota.

Mas o que o politicamente correto tem a ver com esse romntico idiota? O filme Avatar de alguns anos atrs um exemplo ideal para entendermos o que um romantismo para idiotas.

No filme, a humanidade interesseira est destruindo uma civilizao de ndios azuis, os Naavis, que vivem num planeta cujo solo tem riquezas minerais. Ao final, alguns humanos unidos aos ndios azuis salvam a deusa natureza do planeta, expulsam os malvados humanos representantes da usura moderna e voltam a viver em contato com a natureza.

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Cenas como as que mostram conversas com rvores, bestas-feras que se unem aos bons ndios azuis contra os capitalistas malvados ou os ndios azuis de mos dadas cantando sons mgicos ao redor de rvores emocionaram milhares de idiotas pelo mundo. Todo mundo sabe que quase ningum est disposto a viver como os ndios, mas comum gente boba ach-los superavanados com suas tcnicas mdicas do Neoltico.

Abraar rvores no resolve nada, muito menos supor que poderamos voltar a viver em sociedades pr-escrita ou pr-roda. A menos que mais da metade da populao mundial morresse, esses delrios no servem para nada. Da que o justo medo da modernidade e do mundo do dinheiro pode fazer de voc um retardado, como todo medo faz: corremos o risco de ficar em pnico e infantilizados.

Mas o que caracteriza o retardamento mental abenoado pelo politicamente correto crer que voltarmos ao Neoltico nos salvaria das contradies do desenvolvimento da tcnica, fruto de nossos prprios esforos para superar nossos sofrimentos.

Para a praga PC, dizer que ndios so populaes prximas ao Neoltico um pecado capital, ainda que a maioria desses crentes apenas finja amor por eles. A relao entre o politicamente correto e a natureza revelado neste filme Avatar para alm apenas do tema do outro perfeito.

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A relao revelada tambm na sua face religiosa neopag. A ideia de que a natureza seja perfeita religiosa e primitiva. Qualquer relao adulta com a natureza implica saber que ela gera e destri, e, nesse sentido, nossos ancestrais eram mais adultos do que os retardados contemporneos, pois cultuavam a natureza no porque viam nela uma pureza santinha, mas porque enxergavam o poder dos deuses ancestrais: beleza e crueldade.

Os idiotas romnticos de hoje em dia esquecem que cncer to natural quanto os passarinhos e pensam que a natureza seja apenas os passarinhos. Esse tipo de comportamento avana sobre crenas ligadas sade e nutrio, fazendo com que um dia, quem sabe, seja politicamente incorreto comermos animais. Isso no est distante da posio de filsofos como Peter Singer e sua crtica ao especismo, termo cunhado para revelar nossos preconceitos contra os animais assim como contra os negros , porque no os reconhecemos como pessoas com direitos.

Talvez este seja um dos tipos do politicamente correto mais de ponta: comer animal ser um dia proibido por lei se depender desses seguidores de Peter Singer. Claro que no devemos maltratar seres por simples gosto a menos que voc seja menino, more no mato e no tenha muito o que fazer E mais: a cincia muito avana graas a testes com animais. Ser que esses caras esto dispostos a morrer de cncer mesmo que tenham a possibilidade de usar novas drogas? Diro que sim, mas so mentirosos.

O que se revela aqui o eterno carter retardado mental quando no mau carter apenas que o politicamente correto aplica a este tema da natureza e dos animais: a crueldade parte dos esquemas de sobrevivncia dos seres vivos, e no adianta projetarmos uma viso de pureza moral de ns mesmos, porque o mundo pararia de existir.

O que suspeito fortemente de que esses caras apenas desejam passar a imagem de bonzinhos porque no gostam de comer carne. Salta aos olhos que muita gente se faz de bonzinho em cima do discurso politicamente correto tipo save the whales. Parece-me difcil sobreviver se quisermos salvar tudo o que vive sobre o planeta. E o que mais espanta que justamente a tal da natureza a primeira a ser cruel, e eles parecem que no veem.

Basta ver o canal Discovery para perceber que no existe a natureza politicamente correta, ela o oposto dessa praga. Para eles, nem temos sexo, mas gnero. O que gnero, nesse caso? A teoria de gnero afirma que nossa sexualidade socialmente construda. Nada h nela de biolgica.

Assim sendo, as sociedades constroem os gneros leia-se, os sexos na dependncia do poder das classes sociais ou dos grupos malvados da vez. Claro, ao final, quem paga o pato sempre o homem heterossexual. Essa discusso incide diretamente sobre questes caras ao politicamente correto, desde as mais gerais at as mais especficas, como o patriarcalismo, para algumas feministas o culpado pela poluio e pelos erros do Big Bang csmico, ou o fato de que mulheres tm normalmente presso arterial mais baixa devido opresso patriarcal, e no a dados fisiolgicos bem conhecidos.

Mesmo a gravidez deve ser culpa do patriarcalismo. Aqui vale contar um fato real ocorrido comigo. Certa feita, sentado ao lado de uma amiga um tanto feminista infelizmente, porque ela at bonitinha, e feministas, normalmente, so azedas porque so feias antes de um debate do qual participaramos, vi com meus prprios olhos o quo absurdo pode ser o mau-caratismo do politicamente correto no caso especfico da sexualidade e das diferenas entre mulheres e homens.

Minutos antes de o debate comear, ainda sentados na plateia, ela se sente mal. Guia politicamente incorreto da filosofia. Luiz Felipe Filosofia na Alcova Showing 18 distinct works. Guia politicamente incorreto da Filosofia by. Nele, Ponde, com a ironia costumeira, desbrava a historia do politicamente correto, atraves do pensamento de grandes filosofos, como Nietzsche, Darwin, o escritor Nelson Rodrigues, entre outros.

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Salta aos olhos que muita gente se faz de bonzinho em cima do discurso politicamente correto tipo save the whales. Sua filha, ento, comea a namorar um muulmano Mas o que significa ter aret? Rethinking of the French Past. Available in: Basicamente, o mundo sempre foi mau e continuar a ser, porque ele fruto do comportamento humano, que parece ter certos pressupostos naturais.

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